Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2013

NÃO SE PODE CONDENAR A ÁFRICA E OS AFRICANOS POR AQUILO QUE SÃO

Não se pode condenar a África e os africanos por serem aquilo que são. Que não se condenem os mais velhos quando de assustam com aquilo que as novas brasileiras que estão a atrair a pequenada, mostram à sociedade moçambicana muito nova que se deixa embalar. Não se pode condenar que essas pessoas que alguns chamam-nas de conservadoras quando não concordam que pelas ruas a fio crianças andam agarradas aos mais velhos chamando-se de “amor” tudo porque as novelas brasileiras nos ensinaram que “o amor não tem idade”.
Não podemos condenar aos mais velhos que se assustam com filhos que apontam os pais com dedo, exaltando, falando com eles de pé, andando dentro da casa sem camisa e ditando as regras. Alguns até falam de liberdade de expressão e democracia dentro de casa. Se quer imaginam que este moçambique tem uma jovem experiência daquilo que os americanos chamam de democracia. Como diz Filimone Meios, citando Rui Nogar, cada um com as suas idiossincrasias. Que não se condenem à esses mais velhos, chamando-os de atrasados/retardados, quando dizem que o corpo é sagrado para se mostrar pelas ruas. Não se pode exigir desses mais velhos que compreendam isso de dia para noite. Fui tudo de repente. E se quer fomos inteligentes o suficiente para questionar tanto esbanjar de culturas estrangeiras no país e que foram levando os mais novos.
Mas que também não questionem aos novos quando vão a busca desse exterior. Moldam-se os tempos, moldam-se os homens. A verdade é que os mais retardados são os jovens de hoje. O aproveitamento pedagógico por exemplo, não dependerá apenas de um sistema de ensino eficiente em que se chumbe mil vezes quando não se sabe. É que o processo de ensino e aprendizagem não é feito apenas pela escola, há factores externos.
É muita coisa que me aborrece nos dias de hoje. A sede do que é nosso e a fartura do que nos surpreende todos os dias. Quem nos garante que os próprios brasileiros contentam-se com o que vê nas novelas? Quem?
Moçambique ainda não ratificou o acordo ortográfico mas, caiamos em nós, quem tem computador sabe que o acordo ortográfico de Língua Portuguesa, está em uso no país e no mundo, porque a nossa tecnologia não nos permite viver das nossas decisões. Temos, inevitavelmente, que usar o acordo ortográfico assumido pelo Brasil e Portugal. Que escolhas nós temos?  E continuo a dizer como Lourenço do Rosário, a globalização ainda é um processo de que os africanos são apenas sujeitos de experimentação e nunca de execução. Para tal, “A África deve unir-se” disse Nkrumah e eu assino por baixo. Enquanto a preocupação for chamar uns de retardados e outros de adiantados, modernos ou contemporâneos, há uma dose de sabedoria que negamos e que, para o nosso privilégio, vem de lendas vivas.

Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2013

Xitiku Ni Mbawula e o paradigma do quotidiano suburbano


Por Eduardo Quive

NOTA EXPLICATIVA

Em cinco artigos distintos, proponho-me a falar de um dos mais importantes grupos de Rap da Matola e, porque não, de Moçambique. Os XITIKU NI MBAWULA. Todas as sextas-feiras poderemos debater a partir das ideias em que se compõe este grupo, sobre outros grupos nacionais que fazem este estiluo musical. Comentários, críticas e ideias serão bem vindos de modo a que o aqui apresentado seja de concesso de todos.


S-Gee e Dingzwayu. Dois líricos, sociólogos e antropólogos ou detetives suburbanos. Seja como for, o que estes dois jovem são é o que o Patrice Lumumba e Singathela, dois bairros suburbanos, moldaram nos anos 90, tornando-os em lendas vivíssimas, cujos contornos da sua arte é sem sobras de dúvidas um paradigma poético puramente suburbano.
Quem conhece os Xitiku Ni Mbawula, com certeza entende que a sua música tem um espaço, no entanto, curiosamente, é intemporal. Aí está o suco e o factor de interesse na música desta “banda” jovem que dá uma originalidade ao nosso modo de fazer rapper.
Patrice Lumumba é um bairro do município da Matola, província de Maputo. A avaliar pela geografia das línguas nacionais, é um território dos ma-rongas. Mas esse é um mito crer nisso nos tempos actuais. A Matola já é uma cidade potencialmente económica e com vários espaços residenciais, isso permite uma mistura de cores, etnias e, até nacionalidades. E Patrice Lumumba, como um dos mais antigos bairros e dos mais populosos que a Matola tem, obviamente é um ponto de convergências dessas culturas. Aliás é essa intrínseca ligação que dá uma especialidade ao Xitiku Ni Mbawula. O facto de Diguizuayu ser de uma família que tem as origens na província de Inhambane, ainda na zona Sul do país e ter fluência na língua xi-Chopi (pela ligação familiar) e o xi-Ronga, a língua pela qual vive e convive na Matola e, por outro lado, SG ser um nativo, também falante do xi-Ronga, faz dessa união, uma perfeita combinação etnolinguística.
Porém os rapazes não pararam nesse intercâmbio linguístico. Musicalizaram as línguas, ao estilo Hiphop, já que nos ritmos já eram cantadas. Seja por isso se calhar, o Xitiku Ni Mbawula uma referência no uso das línguas nacionais para cantar num estilo que, como é sabido, vem dos guetos dos negros americanos (ou afro-americano, como passam a ser chamados).
Certamente, ao fazer essa escolha, inteligente, não fizessem ideia do fenómeno artístico em ebulição. Até porque na altura em que surgem, a maior preocupação seria o entretenimento entre locais. Lembro-me aliás, de acompanhar os pequenos exercícios de improvisação na varanda da casa do Dingzwayu na Rua “O”, actual avenida Mártires da Machava e os pequenos jam session´s que vieram a ser realizados a partir dos cinco últimos anos nas ruas do bairro. Nesse período o grupo já tinha levantado o voo, portanto, era já motivo de aglomeração das massas a sua aparição. Mas não nos esqueçamos, em Moçambique o Hiphop ainda não é arte das massas, pelo que os adolescentes e alguns jovens é que mais afluíam nesses pequenos espectáculos de rua.
Mas analisar este grupo quanto ao espaço e conteúdo (intemporal, como já referi), é o que me move nesta incursão.
Sem nenhum álbum ainda no mercado, as suas músicas, facto curioso, são de conhecimento de um público nacional e internacional. Pouco tocado nas rádios, a não ser o privilégio do nobre programa de música do estilo Hiphop da Rádio Cidade, aí vem ao topo o nível de pessoas que os seguem. A música destes jovens artísticas, já circula em telemóveis e computadores de muita juventude e até dos mais adultos. Mas como entender esse “bum” quase que silencioso de um género posto a parte em Moçambique?
Conteúdo e método. Daí vem a explicação. O Xitiku Ni Mbawula pauta por discussão e reflexão dos problemas típicos da periferia suburbana, uma vez que, voltando a questão ultrapassada, nascem num contexto e num lugar em que problemas de saneamento, alguma criminalidade, inculturalidade ou imoralidade, entre outros males típicos de um lugar onde a cidade espreita, é que inspiram para a sua necessidade de cantar.
Portanto, o povo tem nas suas mãos dois músicos que se tornaram um, através de um agrupamento que, inclusive, o nome é tradicional, Xitiku Ni Mbawula – conversas em volta da lareira -, traduzido literalmente. A sua música é cantada nas línguas em que os dois artistas cresceram: xi-ronga e xi-Chopi, sendo a última língua a face do Dingzwayu e a segunda, do S-Gee.
Em Xitiku Ni Mbawula, encontramos os males sociais, a precariedade das condições de vida no Patrice, Singathela e até no país em geral como se referem numa música intitulada “Dingzwayu ani zitu” (Dingzwayu tem a palavra) em que os dois, fazem a radiografia de vários problemas ligados aos desafios do desenvolvimento do país acompanhado por abandono dos hábitos e costumes e até do respeito à condição humana do povo.
Ao escutar a música deste agrupamento o povo tem, portanto, quatro (4) elementos de uma só vez, o bom ritmo, a mensagem cuidadosa e rigorosamente elaborada, a tradição/línguas nacionais e a estranheza de em tempos em que há um abandono “aparente” às línguas moçambicanas, um grupo de jovens estudados, aposte na reformulação dos hábitos. Não seja por isso, encontramos em S-Gee, uma voz musicalizada, com uma boa entoação dos coros, quase que nostálgico e em Dingzwayu a abordagem dos paradigmas da Matola suburbana com a maturidade de um idoso conselheiro. Todos estes elementos, fazem da música de Xitiku Ni Mbawlua, única entre o variado talento que a Matola tem. Falo de casos de Filipe Nhansavele, Eugênio Mucavele, Bob Lee até aos mais jovens Edu, Mahel, Iveth, Azagaia, Inocêncio Matola e o internacionalmente reconhecido, baixista, Neco Novella, outros nomes que apenas requerem atenção para se descobrir que esta cidade tem arte.  
Contar a história de um grupo como Xitiku Ni Mbawula, é um acto quase que inesgotável, porém, proponho-me a falar dessa “banda” de Hiphop da Matola, cidade satélite, o maior parque industrial que Moçambique tem. Em mais etapas seguir-se-ão os dados que tornam este agrupamento numa referência e pioneira do estilo hiphop num país onde este estilo musical ainda sobre alguma hostilização.

Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2013

Também a propósito da sua nova música: Neyma - Diva da Marrabenta?


Por Eduardo Quive

Saber cantar e cantar bem. Talvez esteja a falar de dois desconhecidos na música moçambicana. Se tal facto for verdade é mais uma daquelas injustiças que a boa arte dá aos verdadeiros artistas. Porém, este Moçambique não me espanta quando assim procede, até porque, o artista bom é, realmente, o que procede com o trabalho e, a fama, é uma consequência desse árduo empenho. Relembrando José Luís Mendonça, director do jornal “Cultura” de Angola, o maior problema que o mundo artístico enfrenta é dos senhores que criam as portagens no caminho dos artistas. Aqueles que dizem “o trabalho é o caminho, mas eu sou a portagem para chegares ao sucesso”. Na literatura são os críticos literários, mas não um qualquer, deve ser o das grandes universidades e o que os Mídias veneram. Mas na música, é diferente, o que dita o sucesso é o dinheiro e o imediatismo medíocre.
Quanto mais dinheiro o músico tiver, mais amiguinhos da comunicação social terá (locutores e apresentadores de TV, afinal, a imprensa escrita quase que não tem jornalistas culturais); quanto mais medíocre e imediatista for, e bom o suficiente para ajudar as rádios, já barulhentas, a promover o ruído, há mais probabilidade de se sair bem.

Em fim, muitos problemas e que, continuarão por mais tempo, pois, há todo um aparato, bem estruturado e montado para garantir a proliferação dessa sujidade sonora. Temos, por um lado, as grandes empresas que apoiam tudo que é de música e, por outro, a cumplicidade da comunicação social, enquanto o cidadão, passivamente consome sem nenhuma opção. Incrível, me parece que tal como a igreja Universal que comprou espaço em quase todos canais de televisão, essa música também soube garantir a sua esquina nos programas televisivos e radiofónicos.
Tive a honra de receber logo que ficou pronta a nova música da dita “diva da marrabenta”, a cantora Neyma Alfredo, com o título “Djin Ki dji ki dji”. Embora já sabendo de algumas recaídas de qualidade da nossa Neyma, não faltou-me a curiosidade de ouvir de imediato esse “single” que é proliferado por toda a cidade, com cartazes mais espalhados que os próprios discos, com uma foto da artista em alusão.
Escutei a música sentado e atento. Fiz questão de ouvir duas vezes, confesso que foi doloroso. Mas a função de jornalista cultural obriga-me a ter essa paciência. Foi um total aborrecimento. No momento pensei que fosse algo de errado a haver comigo, então, dei a mais três pessoas para escutarem. Dois se quer quiseram ouvir de novo, uma pelo menos dançou naquele ritmo estranho, com a voz da Neyma totalmente adulterada. Ah! Também há que ter voz para cantar uma boa marrabenta como se pretende!
Pelo que ainda vou percebendo, nem todas rádios fazem barrulho com tal música. Bom sinal. E penso que as outras tinham que seguir pelo mesmo caminho. O Banco Comercial e de Investimentos (BCI) tinha que ter pautado também por não pôr seu nobre nome na tamanha podridão e insulto à boa música moçambicana do estilo marrabenta que muito aprecio, conheço profundamente e vivo.
A verdade, senhoras e senhores, que seja sabida de uma vez por todas, Neyma Alfredo, não é diva da marrabenta coisíssima nenhuma, muito menos seja chamado “marrabenta”, nem por ela, nem por ninguém, aquele ruído electrónico que é publicitado como “Anima Marrabenta”. Se a cantora insiste em chamar aquilo de música, que dê outro nome. Mas marrabenta não. Nem como tal “diva” nem como cantora de outras coisas, como bem sabe fazer, tem essa autonomia.
Aliás, pelo que me lembre, o que tem mais, a cantora Neyma são passadas (o que pelo menos cantou com empenho) que a música no estilo marrabenta. Como é que se tornou “DIVA DA MARRABENTA”? O que é e o que fez para merecer tal título? Quem a atribuiu? E que competências têm, as tais pessoas que lho deram o título?
Outra verdade importante é que, é mais honrado quando o artista ganha os títulos por mérito, não pela gula do que muito mal faz. E por último, não devia ser a imprensa a multiplicar esses títulos. No papel de fazedores de opinião pública, críticos, “pessoas conhecidas da matéria”, é importante saber-se fazer algumas perguntas, aquelas que sei que muitos desses mass mídias não têm obedecido: “Quem?, o quê?, porquê?, como?, quando?, onde? e como?”. E o mais importante sempre fazer uma pergunta no final, “será que é socialmente relevante?”
Assim poderemos dizer com propriedade o que é música, marrabenta, ou qualquer outra mediocridade como nos sugere esta cantora, não diva da marrabenta. E o medíocre deve ter o seu devido tratamento, muito bem separado a o que merece o melhor.
Mesmo sem mais nada a dizer, é bom lembrar que o País enferma de uma grande desgraça. Os títulos autoproclamados. Primeiro foi Dilon Ndjindji a chamar-se de “rei da marrabenta” e agora temos uma “diva da marrabenta”, isso, certos de que esse género musical que já foi candidato à património da humanidade na UNESCO é definida por marcas únicas e, ao que me parece, nos últimos tempos quase que difícil de ouvi-lo na voz dos cantores, como puderam fazer os falecidos. Então honremos esses nossos defuntos que merecem uma sucessão ao nível da sua vaidade e bom gosto.

Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2013

A RELAÇÃO ENTRE O TEMPO E O ESPAÇO EM “O SOL NAS FERIDAS” DE RONALDO CAGIANO



Por Eduardo Quive*


Apenas o poeta sabe a dor do parto da palavra. Há, na verdade, dores que só o poeta as conhece. Mas há dores maiores, dores de carne, o fulgor do que a sociedade vive e padece.
Isso remete-nos de imediato à uma dor física, eis porque Ronaldo Cagiano coloca-nos estendidos ao sol para assarmos e fermentarmos as dores que as grandes metrópoles enfrentam que sob caiem directamente ao cidadão.
“O Sol nas Feridas” em 63 poemas reunidos, entre a lírica amorosa e a crítica social, é a solução vista por muitos olhos, mas que só um poeta embondeiro, maduro e vivido sabe justificar a dor do corpo com a sagacidade que o assunto exige.
Lembrar Maria Teresa Horta nestas alturas pode-nos ser uma saída mais eficaz para justificar o sentido desta análise. De acordo com a escritora portuguesa, a escrita e a vida caminham juntas “tem que viver para se ser escritor” – diz ela.
Em Moçambique, de onde me chegou o livro enviado atrevidamente pelo autor, sem temer os oceanos que o mesmo atravessaria desde o Brasil, há um outro embondeiro, Suleiman Cassamo, autor do clássico e símbolo nacional “O Regresso do Morto”, tornar-se-ia cúmplice da poesia deste “velho poeta”, pois disse uma vez que “é preciso ter vivido para escrever”.
É o escritor, o poeta, e os seus devaneios; é o poeta, o cidadão e as razões da sua poesia missionária, não alheia aos mistérios do corpo. Ronaldo Cagiano sabe ser o que tem que ser na indagação e no desassossego a que a sina poética nos remete. Com a devida serenidade é lírico, cuida de si e dos seus sentimentos, mas com a incompreensão dos tempos é externo, exógeno, sente no lugar dos outros refém da engajada posição do poeta zelador e consciente de que “o ofício da verdade é proibido pôr algemas nas palavras”. Liberta-se e fala de sangue, abismos, precipícios, a gênese e o fim.
Reinaldo Cagiano, este meu desconhecido poeta “conta” na sua poesia convulsiva em “O Sol nas Feridas” que “entre a fuga/e os deslizes/ o poema vinga”, mas mais do que esse olhar atento em “Gênese”, o encontramos a consciência e a saudade de algum tempo ao olhar já nós, atentamente o poema “Escamas”:

(…) A vida, em suas estranhas latitudes,
território lisérgico onde dormiam meus fantasmas
já não é mais o cemitério onde cultivo desilusões

hoje, planeta do qual não me escondo,
             catapulta-me sobre os abismos.

Ao a poesia de Cagiano, com certeza não se sairá sem se indagar: como esconder as ferias do sol, quando o meio mundo desconhece, o seu próprio paradeiro? E a poesia é chamada a tão estremo papel de contar o que todos sabem.  A essa dura tarefa cabe ao poeta que poderá não ser compreendido.
Sobre esse aspecto, Reynaldo Damazio já chama atenção na sua nota de leitura no livro ao dizer que “ o sentimento de impermanência e de precariedade ronda a poesia e exige do poeta uma tomada de posição, no sentido de enfrentamento das verdades provisórias.” É essa a posição que Ronaldo Cagiano escolheu tomar ao ver o que viu:

Enquanto o cortejo seguia
alheio aos gestos automáticos
das mãos que cerravam as portas

            Outros continuavam a vida
            imunes à que passava,
despojada de sua última chamada.

A cidade não seria diferente
porque amanhã
outras notícias viriam

É assim que Ronaldo Cagiano faz a relação dos males do seu tempo desde a nascença em Cataguases, Minas Gerais, passando por Brasília, onde formou-se em direito chegado à São Paulo onde reside e tem o seu trabalho. Mas não parou por aí escalou Buenos Aires, Teerã, Berlim, Pirapetinga, Lisboa, Paris, Adrogue, Alentejo, Morrinhos, Persépolis, Itabira, essas “geografias do acaso/ no arremate dos acasos/ onde pululam pássaros aziagos/ e homens ensimesmados/ habitam cidades sem memória,/ cemitério dos vivos.
É assim que o poeta faz a sua poesia, não omitindo o tempo e o espaço, numa forma perplexa de li dar com o texto que quer também contar histórias dos nossos dias. Uma poesia, que se pode dizer de combate aos males de hoje, inclusive a da falta de amor, saudade e das irmandades manobradas pelos contextos.
Certamente seja por isso que até os males do passado são elementos indispensáveis dessa matéria concentrada nessa obra que pode-se chamar de antologia, onde o autor termina com uma pergunta, no mínimo socorrista “Onde está Deus/ cujo poder não exercita?/ cuja vontade não realiza?/ cujas bênçãos nunca vêm?” pergunta o poeta, sabendo da ineficiência da sua função perguntativa. Pergunta para não dizer que não perguntou e que todos testemunhamos. Quem o responde?

Segunda-feira, 26 de Novembro de 2012

"Lágrimas da Vida Sorriso da Morte" de Xiguiana da Luz





O Livro "Lágrimas da Vida Sorriso da Morte" é da autoria de Xiguiana da Luz (pseudónimo de Eduardo Quive). tem 63 páginas tem poesia e prósa poética.
O Livro é dividido em duas partes, nomeadamente:


LÁGRIMAS DA VIDA

Nessa parte o sujeito poético é um vivo na prespectiva em que este deseja a morte. Uma poesia de invocação à morte cuja preocupação é "quando é que vou morrer"? Virando os olhos para a nossa sociedade, esta parte do livro pretende chamar atenção para o quão uma vida pode ser sinónimo de morte quando o corpo e a mente não reagem. Uma poesia virada para a interpretação e alguma crítica social sobre o que nos é mais valioso que é a vida.

SORRISO DA MORTE

Nesta parte o autor já encarnado num sujeito poético morto, dialoga com o aquém como um verdadeiro morto feliz. A morte nesta parte é abordada como a vida. Uma metáfora para dizer "ó morte tu não és nada" ao mesmo tempo que há uma preocupação em dizer "os mortos também falam, sonham, desejam, sentem e vivem".
Ainda é um facto interessante desta parte porque o lívro termina com duas prosas poéticas onde o autor (o morto) dialoga consigo mesmo. A morte e o morto a falarem por si, numa verdadeira imaginação e reflexão profunda sobre a mente humana e as suas frustrações.

Aliás, o texto "MONÓLOGOS DA MORTE" que é o último é que será representado pelo actor Palito e pelo pequeno saxofonista Abel Mutisse no espectáculo de lançamento.

O Livro é editado pelo FUNDAC e conta com o prefácio do poeta brasileiro Rubervam Du Nascimento. A apresentação da obra estará a cargo de Lázaro Bamo.


NOTA: O livro já teve um pré-lançamento no dia 15 deste mês no Brasil na X Bienal Internacional do Livro do Ceará, em Fortaleza em que fui convidado a fazer parte. E foi ainda apresentado o espectáculo Monólogos da Morte do livro nos dias 22 e 23 na Escola Portuguesa de Moçambique.

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TV-NUMA PALESTRA COM ESCRITOR BRASILEIRO, RUBERVAM DU NASCIMENTO